Boss AC – O Verdadeiro ft. Black Company, DJ Ride

Foi amor à primeira vista na época dos 90
Boombap ali no deck, no cypher a primeira letra
No tempo em que sem mics e mesmo assim
Havia entrega a festa a raspar na discoteca
Hey no tempo da descoberta
Sem muita oferta, QY10 a nossa orquestra
Sinto falta disso tipo vício no princípio
Quando o Hip Hop na Tuga ‘tava no seu início
BC, BAC, Líderes da Nova Mensagem
Era Family, a New Tribe, uma nova abordagem
Eu bem puto mas c’o rap na bagagem
No Miratejo atrás da Praça, o local da minha paragem
As after-party no Cais Sodré e a gente a cuspir
Esculpir sem saber o que ‘tava p’ra vir a seguir
Beatbox, don’t stop, a vibe era outra
Dreads da Zona, Funky D, uma nova Rapública

Quem lá estava sabe bem do que falo
No tempo em que os filmes no cinema tinham intervalo
Matinés no Visage, Loucuras ou Locomia
No Johnny Guitar era tudo acontecia, word up!
Sempre curti o boombap
Não saía de casa sem a corrente e sem o cap
Assumo nesta questão o meu gosto é antiquado
Posso ser imitado mas nunca igualado
Quem eram aqueles putos de calças largas?
Dropavam beatbox e com rimas meio amargas
Um bando de irmãos, eramos apenas uma tribo
Em cima do palco era quando me sentia vivo
E quando mais precisamos a música foi a cola
Tuga, Cabo Verde, Guiné, Moçambique e Angola
Descobri a negritude quando andava à deriva
“Os blacks começaram a afirmar-se e a ter orgulho de serem blacks”
Rodas de improviso à noite no meio da rua
Versos eram cuspidos e deixavam a alma nua
Fomos soldados numa luta que é minha e tua
Agora olho para trás e vejo que a luta continua
Às vezes sinto falta como ar para o pulmão
Sento relaxo, relembro e bate a emoção
Tipo pele de galinha a ouvir um granda beat
“Ya Gutto! Nós fomos os primeiros filhos da street!”
Mais do que música valia a cultura
A rima mais fresh com a batida mais dura
Eu vivi emoções com as quais nunca sonhei
Mano o que eu sinto pelo rap só eu sei….

Isto é um amor para a vida inteira
Começou em 86 nas Lajes na ilha Terceira
O Tony fez lá a tropa, trazia-me as novidades
Mixtapes americanas com as novas sonoridades
Eu não sabia o que era aquilo mas sabia que adorava
Grandmaster Flash, Sugarhill e tantos que eu escutava
Imitava e rimava em inglês
Primeira vez não me satisfez quando rimei em português
Mas aos poucos fez-se justiça
O Pensador mostrou-nos que a língua lusa era a premissa
Tudo o que conseguia arranjar ouvia tipo missa
Devorava cassetes de Yo MTV Raps vindas da Suíça
“Em 93 na altura do Verão, né?”
O Hernâni convidou 7 grupos para a gravação
Rapública tornou-se a primeira compilação
O que parecia brincadeira tornou-se então uma missão
Rapper full time, conquistei uma audiência
Agradeço ao Rui Miguel, obrigado pela insistência
Eu e o Q-Pid a gravar pela Norte Sul
Fiz o Mandachuva nos mandamentos da old school
De La Soul, Mobb Deep, Nas, EPMD
Pete Rock, Cool J, Gang Starr e PE
Big Daddy Kane, KRS, Biggy, Tribe Called Quest
Jay-Z, East Coast “Ya mas também curtiamos West”
Dre, NWA, Warren G, Snoop Dogg,
Cypress Hill, Ice Cube, 2PAC, Nate Dogg
Foram tantos professores com quem aprendi a ser MC
“Ya! Até subiste ao palco no Porto com o Ice T!”
Em Nova York compararam-me ao Rakim
Não gosto de comparações, confesso que foi sublime
T.O.P. Dream Team, Troy foi o meu padrinho
Álbum gravado pronto a passar no programa do Mariño
Longo o caminho desde o Bambaata, Zulu pioneiro
Quem diria que o acompanharia no Rio de Janeiro?
Dá-me o mic o beat o MC e o DJ
Ainda cá estou, o que sinto pelo RAP só eu sei…

O verdadeiro…

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