Samuel Úria – É preciso que eu diminua

Já não caibo numa casa
Onde o espaço é todo meu
Não são obras que me salvam
Eu só sei crescer
Eu só sei crescer

Durmo de janela aberta
Tenho os braços no estendal
Eu podia acenar-vos
Mas só sei crescer
Eu só sei crescer

Leio o topo da estante
Tudo livros de engordar
E eu preciso abreviar-me
Mas só sei crescer
Eu só sei crescer

Qualquer palmo que me meça
É de mão sem cicatriz
O que eu sou é largo de ossos
Mas só sei crescer
Eu só sei crescer

Eu só me caibo cá dentro
Mas bato no peito
Por estar com o meu ar rarefeito
Eu inicio o discurso
Citando o sujeito

Primeira pessoa é preceito
Eu nem cá dentro me caibo
Mas bate a cabeça no teto
E cai na travessa
Eu já calei o discurso

Que a língua tropeça
Mas o gigantismo amordaça
Eu já invento virtude
No pico não peco
Lá em baixo ficava marreco

Estou tão em-mim-mesmado
Que atiro ao boneco
Gigante barrado no beco
Eu já não sei inventar-me
É só mais do mesmo

Fermento em massa de autismo
Eu nem de mim já me pasmo
Há mar e marasmo
Há ir e voltar aforismo
Eu só sei crescer

Mas só sei crescer
Eu só sei crescer
Eu só sei crescer
Mas só sei crescer
Eu só sei crescer
Eu só sei crescer

BOTAO-SEGUE2

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