João Tamura – O Sítio das Coisas Selvagens

olivais sul, dois mil e sete, a nossa vida é uma cassete
tão sozinhos mas somos tantos no mesmo beco
não há espaço para o sorriso na solidão do que é ser puta
quando à falta de amigos só tens a lua
nesta cidade é a maldade e podes tudo menos chorar
e o MD e o não sei quê – experimenta aqui é só cheirar
tão presos a esta merda, nem sabemos o que é sonhar
numa rua que nos acolhe sem nos amar…
e partilhamos esta noite e partilhamos mais um cigarro
na certeza de não existirmos fora das ruas deste bairro
que nos agarra e nos mata lentamente…
que nos separa e nos arma frente a frente… e neste espaço e tempo
dar um passo eu tento… e ela dança a dor
sem pudor, sem planos, sem amor.
sem saber para onde vamos e eles desejam-te pela noite
pois quando gemes são pianos que tão bem calam esta fome

olivais sul, dois mil e sete, a nossa vida é uma cassete
tão sozinhos mas somos tantos no mesmo beco
e somos tantos no mesmo aperto. na solidão onde vem um deus
quando à falta de alguém só tens o céu
e o que o cancro é. e ela acende as velas
uma casa não são as paredes, mas aquilo que há dentro delas
e ela cambaleia nelas. as mãos caem-lhe às pernas
e cai-lhe o coração ao chão quando as entrega
sei que o amor já não nos toca, tão imperfeitos juntos
agarrados tanto à droga mas sentimos tanto tudo…
aprendemos a consumir e a vender
a sentir o acender e a fingir quando doer…
e eu finjo mal. e eu sinto que talvez
este bairro ame a maldade ao ponto de se tornar um ritual
é um ballet de balas, mas a dança é desigual
pois em belém há sempre alguém que vive bem com o nosso mal

BOTAO-SEGUE2

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